09 setembro 2005

 

A FÁBULA DOS "CEM CÃES" EM ALCÁCER DO SAL

Como a exposição "Cem Cães - Sem Cães" foi abortada numa pequena cidade alentejana
Era uma vez um pintor, vindo de longe, que gostava de retratar a alegria e a tristeza, a inveja e a ternura, o amor e a infelicidade, que uns causam aos outros e a si próprios. Em poucas palavras, gostava de mostrar às pessoas um espelho delas próprias e para isso, chamava às suas pinturas "auto-retratos". Mas, em vez de pintar seres humanos, retratava cães. Ao fazê-lo, inspirava-se no famoso escritor francês De La Fontaine cujas "fábulas" são conhecidas em todo o mundo, e que um dia afirmou: "Sirvo-me dos animais para instruir os homens".
Os cães do pintor alemão tinham os dentes compridos. Embora ladrassem em silêncio, ninguém podia duvidar da sua agressividade. Os cães possuíam também os seus órgãos sexuais e, como todo o cão que se preza, não se privavam de os utilizar.
As pinturas em tela dos "Cem Cães - Sem Cães" foram exibidas na Turquia, na Alemanha e por fim em Lisboa, e a Câmara Municipal de Lisboa até enviou uma carta ao pintor para o felicitar sobre o êxito da exposição.
Até que um dia, uma pessoa vinda de Alcácer do Sal, ao ver todos aqueles cães pendurados das árvores do Campo dos Mártires da Pátria em Lisboa, exclamou "Oh, que bela exposição. As pessoas de Alcácer têm que ver isto, pois os cães fazem parte do seu quotidiano e teriam muito a aprender. Talvez não tanto sobre os cães, como sobre elas próprias."
O homem de Alcácer - que na realidade também era estrangeiro, como o pintor - contactou-o, e contactou também o Califado de Alcácer para pedir autorização para exibir a exposição nas ruas da cidade e nas muralhas do castelo.
O Califa e o seu adjunto, responsável pela cultura, acharam esta proposta especialmente atraente, pois a cidade estava em plenos preparativos para a sua festa anual. Como todos os anos, devia haver, entre outros, concursos de cães. Assim, a autorização foi concedida e foi mesmo prometido um auxílio ao estrangeiro, na forma de uma grua mecânica e dois homens para pendurar os cães nas árvores e nos mastros que, com os seus ninhos de cegonhas, são visíveis de longe, na colina do castelo.

Um belo dia de Maio, o pintor chegou a Alcácer do Sal e, com a ajuda de dois homens do Califado, começou a pendurar os quadros de cães nas árvores da praça.
Num dos quadros via-se um cão a tomar banho. Num outro, estava escrito "Quem não tem cão, caça com gato". Num terceiro, via-se um cão enorme, preso com uma corrente e verde de raiva. Um quarto quadro, mostrava um cão, divertido e feliz, a lamber os beiços. E assim por diante.
Por fim, num dos quadros, podia ver-se o cão "Clinton", grande maestro da música. Numa das mãos a batuta, a outra na braguilha, regia o mundo, ondulando na brisa, por cima das cabeças das pessoas.
O banco da "Má língua" na praça, de repente, era sacudido pelos rumores. Acabava-se a sessão da bolsa dos boatos.
Os velhos que, habitualmente, passavam dias inteiros a contar as suas velhas histórias de caça, tinham encontrado caça grossa: "Às armas, cidadãos!"
O apelo fora ouvido e a batida podia começar. As pessoas nos cafés faziam aquilo que nunca tinham feito. Abandonavam o tele-lixo na televisão - a sua droga quotidiana - para discutir arte. Uns troçavam dos cães e em especial do "Clinton", mas outros não achavam piada nenhuma à história do charuto. O vendedor de lotaria levantava o polegar para mostrar a sua concordância. Um outro, chamado "Zig-Zag", sempre à caça dum biscate, chorava a rir e quase que engolia a sua enorme língua. Um tal João perguntava por que razão os cães eram mostrados tão feios, se os animais eram tão belos. "Está a fazer publicidade a quê?", perguntava uma senhora, já bem acima dos oitenta. "Está a ver, Alcácer, está muito parada", foi o comentário amargo de um jovem perante todas estas críticas. E acrescentou: "Do ponto de vista administrativo, Alcácer é uma cidade, mas na realidade, é uma aldeia". "Aqui, tudo é difícil", concordou o seu amigo.
Tinha toda a razão. "Cave canem" (Cuidado com o cão). O artista não podia adivinhar como o aviso num dos seus painéis era actual. De facto, havia atiradores furtivos entre as pessoas da praça. Armados dos seus telemóveis e escondendo bem o rosto, telefonavam para o Califado da cidade, denunciando a "pornografia" que tinha invadido a praça pública.
O Califa e o seu adjunto bem podiam sonhar com a revolução mundial. No quotidiano, era preciso antes de mais preocupar-se com a manutenção da ordem pública. Como esta estava em risco de tombar, era necessário atacar forte e feio. Impensável permitir que aquela canalhada de cães originasse maçadas em Alcácer do Sal.
Assim, sem prevenir o artista nem o organizador da exposição, enviaram uma equipa de seis homens com seis escadas para a praça, com a ordem "Tudo para o meio do chão". Nunca se tinha visto uma equipa de operários municipais agir com tanta rapidez e eficácia. Não havia nada a dizer. Os mesmos homens que tinham levado seis horas para içar seis quadros de cães, levaram agora menos de três minutos para os arrancar.
Assim que os cães caíram por terra, perguntaram ao artista se queria levá-los consigo ou deixá-los na lixeira. Na praça ficou apenas um único cartaz. O do Partido Comunista. "Todos contra a guerra" era o que se podia ler. E ainda a palavra "VERGONHA".
"São estes os "brandos costumes" de que se gabam as pessoas por aqui?" perguntou o artista ao seu amigo estrangeiro. "Um cão que não sai de casa não deve temer qualquer pontapé", respondeu o outro um pouco evasivo.
Após a partida da equipa de intervenção, a praça, pouco a pouco, retomou a sua calma e os cães de carne e osso retomavam o seu sono. Entre os mais velhos, que se lembravam ainda bem dos tempos da "outra senhora", mais do que um tinha a impressão de ter já vivido cenas como aquela a que se acabava de assistir.
No meio da calma reencontrada, alguns dos cães da praça continuavam a cismar. Uma nova inquietação lhes subia à cabeça. Chupavam e voltavam a chupar o seu charuto e perguntavam-se se a nova geração de cães, já de si pouco numerosa, não tinha acabado de emigrar de uma cidade onde não existe nunca razão para ladrar.
O tele-lixo daquele mesmo dia, entre folhetins e talk-shows ordinários, alimentava os seus clientes com um novo episódio da interminável saga da Casa Pia: graças aos seus óculos, um dos deputados da Assembleia da República, tinha acabado de ser identificado nesse mesmo dia, através de uma fotografia, como um dos muitos homens suspeitos de ter abusado, durante anos, das crianças do célebre orfanato de Lisboa. A relação entre poder, sexo e violência: era isso que o artista alemão tinha querido mostrar a seu modo: simplesmente por meio de uma parábola, como o autor das Fábulas de La Fontaine.
Miguel Mosquito

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